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Artigo de Saúde Pública®

Nº 59 / Maio de 2007






30 Espaço OTORRINOLARINGOLOGIA
Perturbações do sono na moda - Hoje sabe-se que ressonar não é sinónimo de um bom sono
Na moda estão as perturbações do sono, particularmente as apneias, as dificuldades respiratórias devidas ao mau sono e ao ressonar. Muita gente dorme mal e não tem uma noite descansada devido ao nariz entupido e à apneia do sono.


«Antigamente, pensava-se que quando o indivíduo ressonava era sinal de um bom sono. Hoje sabe-se claramente que não é assim. É, antes, uma má forma de dormir, que pode ter consequências secundárias graves. Para além de alterações metabólicas, de ordem endocrinológica, como a impotência sexual, há outras perturbações associadas que podem surgir», afirma o Prof. António Paiva, presidente da Sociedade Portuguesa de Otorrinolaringologia e Cirurgia Cérvico-Facial (SPORL-CCF).

No entanto, a grande massa de doentes está no foro das infecções. A chamada dor de ouvidos, a dor de garganta ou o nariz que se assoa constantemente. «Esta é a grande área de problemas: as infecções agudas e crónicas que hoje, felizmente, se combatem muito melhor, devido à eficácia dos antibióticos. Hoje preservamos muito as estruturas nasais e da faringe com a terapêutica medicamentosa e com as cirurgias actuais. O cancro tem grande impacto, dada a gravidade destas doenças que levam à morte, pelo que é indispensável fazer um diagnóstico atempado e com terapêutica eficaz», refere aquele especialista.

As infecções em otorrinolaringologia são divididas, diz o Dr. João Marta Pimentel, director do Serviço de Otorrinolaringologia do Hospital Garcia de Orta, «pelas três principais áreas anatómicas que esta especialidade contempla, ou seja, ouvido, nariz e garganta».

Este médico explica que as principais infecções do ouvido são a otite média, viral e bacteriana e a otite externa bacteriana. Em relação ao nariz e seios perinasais, a rinite viral é a infecção mais frequente e consiste na habitual constipação, havendo igualmente outras infecções do nariz relativamente frequentes como a rinosinusite viral e bacteriana. No que diz respeito à garganta, a amigdalite e faringite agudas são as duas infecções mais frequentes.

Maternidades com papel importante no rastreio neo-natal da surdez

Outro aspecto a sublinhar é a surdez nas crianças. Se não for tratada convenientemente, trará mais tarde sérias complicações na comunicação, mormente na fala. Na opinião de António Paiva, as maternidades têm um papel importante a desempenhar no rastreio neo-natal. Um passo decisivo, nunca é demais salientar, é pugnar pelo diagnóstico precoce da surdez nas crianças, sobretudo em determinadas áreas de risco em que se sabe ser mais provável surgirem problemas deste género.

«Isto conduz naturalmente ao diagnóstico de crianças com surdez total e fará com que, num breve espaço de tempo e nos primeiros tempos de vida, essas crianças possam receber um implante coclear. A SPORL-CCF tem procurado dinamizar todas estas áreas, nomeadamente, tocando no tema nos vários encontros realizados actualmente, de forma a estarmos a par do “estado da arte”».

No campo da doença inflamatória aguda, a otite média aguda, principalmente na infância, «é extremamente frequente», sustenta João Marta Pimentel. Pode ter origem num vírus ou numa bactéria. No primeiro caso, admite o especialista, o tratamento passa por diminuir os sintomas «como dor, febre, a obstrução nasal associada, entre outros. No segundo caso, entra em campo a terapêutica com antibióticos».

Eis os sintomas sistémicos da otite média aguda com origem num vírus: dores no corpo; dores de cabeça; ligeira prostração e falta de força; obstrução nasal e aumento das secreções nasais. E ainda, explica João Marta Pimentel, «um aspecto típico na observação do ouvido, estando este eritematoso (vermelho), com perda da normal translucência da membrana timpânica, entre outros sinais».

Já a otite bacteriana pode também ter começado, segundo o especialista, por uma otite viral. No entanto, é mais localizada ao ouvido, «quase sempre com otorreia, que significa a saída de pus do canal auditivo, febre e um aspecto característico na observação, com abaulamento ou perfuração da membrana timpânica e saída de pus proveniente do ouvido médio».

A infecção aguda mais frequente no nariz é a rinite aguda viral. Não passa da habitual constipação causada habitualmente por um agente denominado rhinovirus. Os sintomas? Dores no corpo, dores de cabeça, fadiga, perda de apetite, febre, obstrução nasal, aumento das secreções nasais. A terapêutica abrange o controlo dos sintomas «com descongestionantes nasais, anti-inflamatórios e analgésicos», refere João Marta Pimentel.

A rinosinusite aguda é também comum e uma extensão do processo infeccioso agudo da fossa nasal para os seios perinasais, tal como explica o médico. À sintomatologia da rinite aguda «adicionam-se dor, sensação de peso ou opressão na face, nomeadamente entre os olhos, na região frontal e por baixo dos olhos». O especialista considera que «o tratamento desta patologia é semelhante ao da rinite aguda, contudo, frequentemente esta situação evolui para uma rinosinusite bacteriana, na qual há necessidade de tratamento com antibió­ticos».

No caso das infecções da garganta, as amigdalites e as faringites são as mais frequentes, com sintomas semelhantes. São eles febre, fadiga, «odinofagia, que significa dor ao engolir», esclarece João Marta Pimentel, e ainda dor persistente na garganta, dor irradiada ao ouvido e mau hálito. «A evolução dos sintomas, gravidade e aspecto à observação são essenciais ao médico para distinguir entre as situações virais e as bacterianas», acrescenta o especialista.

Neste âmbito, é preciso prevenir. Nada melhor do que consultar o especialista para que se evite que um problema agudo se transforme em crónico. A este propósito, João Marta Pimentel tem um discurso tranquilizador, à partida. «A maioria dos processos agudos resolve-se sem deixar sequelas.» Contudo, ressalva este médico, «sem dúvida que a má orientação de determinados factores pode levar a um processo crónico, bem mais difícil de tratar». E João Marta Pimentel ilustra com um exemplo:
«O incorrecto acompanhamento de situações otorrinolaringológicas na infância, como a otite serosa, a hipertrofia de adenóides ou a rinite alérgica pode levar ao aparecimento de uma otite média crónica. Da mesma forma, se determinados problemas nasais não forem controlados, como a rinite alérgica, pode levar ao aparecimento de rinosinusite crónica. Deste modo, no caso de persistência ou recorrência de determinados sintomas, quer nas crianças, quer nos adultos, deve procurar-se ajuda de um especialista, de modo a despistar e prevenir o aparecimento das situações crónicas.»

Acompanhamento incorrecto traz complicações

Particularmente nas crianças, João Marta Pimentel deixa algumas indicações importantes de como prevenir este tipo de quadros clínicos. Desde logo, «muito pode e deve ser feito nas crianças de modo a evitar-se a evolução para quadros crónicos. Isto é particularmente verdade em relação aos ouvidos. É sabido do público em geral que as crianças têm mais otites e problemas de ouvidos do que os adultos. Isto deve-se a vários factores, nomeadamente a alterações do sistema de drenagem do ouvido médio, hipertrofia dos adenóides, rinite, imaturidade do sistema imunitário. Estas alterações devem ser controladas, quer medicamente, com fármacos que diminuam o processo inflamatório do nariz, previnam ou curem as infecções, quer cirurgicamente, caso seja necessário».

Neste caso particular, o exemplo mais comum é a remoção cirúrgica dos adenóides e a colocação de tubos de ventilação temporários na membrana timpânica. «A provar que o correcto seguimento na infância é eficaz, temos a diminuição significativa da prevalência da otite média crónica no adulto nos últimos 30 anos.»

No caso de se verificarem otites de repetição, surdez,
amigdalites de repetição, rinite crónica, roncopatia e apneias durante o sono, «as crianças devem ser encaminhadas para um otorrinolaringologista», aconselha João Marta Pimentel. «A esmagadora maioria destes casos tem um desfecho positivo, sem deixar sequelas, caso sejam correctamente diagnosticados e orientados», diz o médico.

Em suma, as consequências destes problemas de saúde na qualidade de vida dos indivíduos são vastas, como atesta João Marta Pimentel. «Em relação às doenças agudas, como a rinite aguda, rinosinusite aguda, amigdalite e faringite, são das principais causas de absentismo. Estudos feitos nos Estados Unidos mostram dispêndios elevadíssimos, quer em termos económicos, quer em dias de falta ao trabalho provocados por estas doenças.

No que toca à patologia crónica, influencia igualmente sobremaneira a qualidade de vida da população afectada: nas doenças otológicas, pela surdez, otorreia e acufenos (zumbidos); nas doenças nasais, pela obstrução nasal persistente, rinorreia, dores de cabeça, sensação de peso na face, etc.; nas doenças da garganta, pela sensação persistente de corpo estranho ou infecções recorrentes».


SPORL-CCF em congresso

A Sociedade Portuguesa de Otorrinolaringologia e Cirurgia Cérvico-Facial (SPORL-CCF) realiza o 54.º Congresso Nacional entre 12 e 15 de Maio, em Coimbra. Pela primeira vez, este evento vai decorrer em simultâneo com o 4.º Congresso Luso--Brasileiro e com o XII Congresso Luso-Espanhol.

Nas reuniões científicas em agenda, o Prof. António Paiva, presidente da SPORL- -CCF, salienta que o que se pretende é «congregar os serviços hospitalares, os especialistas, internos, técnicos para-médicos, nos domínios da ORL, a fim de se conhecer o estado da arte e dar o testemunho das mais-valias científicas e técnicas da nossa especialidade, nos seus vários domínios».

A SPORL-CCF, já com mais de 50 anos de história, tem mantido, segundo António Paiva, «um profícuo relacionamento com as suas congéneres, quer da Europa, dos Estados Unidos em particular e também com os países da lusofonia. Este ano com a particularidade de, pela primeira vez se juntarem as sociedades Brasileira, Espanhola e Portuguesa numa reunião científica».

Os prelectores convidados «são algumas das personalidades com mais e melhores méritos, nacionais e estrangeiros», destaca o dirigente da SPORL-CCF. São convidados os especialistas Emile Reyt (França), Gerhard Rettinger (Alemanha), H. Stammberger (Áustria), J. M. Sterkers (França), Pietro Palma (Itália) e Wolfgang Steiner (Alemanha).

De acordo com António Paiva, este congresso assume os objectivos «de fazer o ponto da situação, em cada uma das matérias focadas no domínio das doenças dos ouvidos, do nariz, fossas nasais e seios peri-nasais, da faringe e laringe, distúrbios da voz e oncologia no domínio da ORL».


Lacunas identificadas


No âmbito das lacunas identificadas e por preencher na especialidade, no caso português, António Paiva vê principalmente dificuldades a nível financeiro e de equipamento «nos serviços hospitalares e universitários, de forma a termos programas de investigação». Este último aspecto é por demais focado, mas esbarra numa contradição. «Pretende-se que o País vá por essa via, que acho fundamental. Infelizmente, estamos num momento
particularmente difícil do ponto de vista financeiro.»

Por outro lado, António Paiva considera que a população médica da especialidade está como que envelhecida. «Há dificuldades em renovar os recursos humanos que, por outro lado, também continuam a ser insuficientes. Há uma grande diferença entre os indivíduos de 50 anos e os de 30. Isto porque, para se ser especialista, são necessários cinco anos de internato, mas depois, para ser ter alguma experiência, que, de facto, é a mãe de todas as artes, são necessários pelo menos mais cinco anos. Há que preservar as carreiras e os concursos médicos para que os nossos jovens continuem a aperfeiçoar-se e conseguirem construir um bom curriculum vitæ, sabendo que esta é uma profissão difícil e que necessita muito empenho, estudo e perseverança e de uma actualização permanente».

O que se pretende com o evoluir da Medicina é elaborar diagnósticos atempados de forma a preservar o órgão e se possível a função. O facto, por exemplo, de alguém dormir com o nariz «tapado» e «ressonar» ou andar durante o dia com o nariz entupido confere má qualidade de vida. Há doenças que impedem uma respiração normal.


Texto: David Carvalho
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