Artigo de Saúde Pública®
Nº 38 / Outubro de 2005
08 Espaço Nefrologia - O papel dos clínicos gerais na melhoria dos cuidados renais – Dr. José Vinhas
Sendo a doença renal crónica um problema grave de saúde pública, deverá conduzir à elaboração de um plano para a redução da sua prevalência, integrado no Plano Nacional de Saúde.
Estudos recentes revelaram que a prevalência da doença renal crónica (DRC), particularmente nas fases mais precoces, é surpreendentemente elevada na população em geral. Nos últimos anos, a epidemia de diabetes tipo 2 conduziu a um aumento alarmante no número de doentes com DRC. Os diabéticos representam, actualmente, cerca de 30% dos doentes seguidos em consulta de Nefrologia, e 20% dos doentes que todos os anos iniciam diálise em Portugal.
Uma percentagem elevada dos doentes com DRC morre de complicações cardiovasculares e, em cada ano, cerca de 2500 desenvolvem insuficiência renal terminal (IRT), requerendo terapêuticas de substituição renal extremamente dispendiosas, por diálise ou transplantação renal. Existem actualmente em Portugal cerca de 12.000 doentes que recebem estes tratamentos, dos quais mais de 8000 estão em hemodiálise.
Trata-se de um grave problema de saúde pública, que deveria preocupar as entidades oficiais, necessitando do desenvolvimento de estratégias para atrasar e prevenir este quadro sombrio, pela prevenção efectiva da DRC, baseada na consciencialização, detecção precoce e tratamento efectivo. Contudo, a DRC não está sequer incluída no Plano Nacional de Saúde, existindo apenas planos para redução dos AVC e dos enfartes do miocárdio (EM).
Múltiplas publicações têm defendido que a solução para este problema passa pela referenciação precoce ao nefrologista e pela melhoria da articulação entre clínicos gerais e nefrologistas. Acredito que está na altura de mudar este paradigma.
Não estando em causa a indispensabilidade da melhor articulação entre as duas especialidades, a verdade é que na gestão do tratamento das fases mais precoces da DRC falta aos nefrologistas a oportunidade e a capacidade. A oportunidade para detectar a doença pertence claramente aos médicos de Clínica Geral (MCG). Os nefrologistas só têm contacto com doentes já conhecidos. No que diz respeito à capacidade, o actual número de nefrologistas é manifestamente insuficiente para tratar esta população. Acresce que os nefrologistas, assoberbados com o tratamento da IRT, têm pouco tempo disponível para as fases mais precoces da doença.
Existem duas possibilidades para suprir estas insuficiências: formar mais nefrologistas para actividade exclusivamente extra-hospitalar, ou aproveitar os MCG dando-lhes a formação necessária. Devo dizer que sou francamente a favor da segunda possibilidade.
Numa altura em que o tratamento da IRT está assegurado com elevado nível de qualidade, colocam-se três novos grandes desafios à Nefrologia em Portugal:
• Diversificar as alternativas dialíticas, incrementando a diálise domiciliária e, nomeadamente, a diálise peritoneal. Neste contexto, poderá ser útil o estabelecimento de parcerias;
• Incrementar a transplantação renal através do aumento da transplantação de dador vivo;
• Desenvolver estratégias para atrasar e prevenir a DRC, assentes nos MCG, e baseadas na consciencialização, detecção precoce e tratamento efectivo.
A Sociedade Portuguesa de Nefrologia poderá ter um papel importante a nível da consciencialização de profissionais de saúde e população em risco, e na formação contínua dos MCG. A forte relação existente entre doença vascular e doença renal deverá conduzir à elaboração de um plano para redução da DRC integrado no Plano Nacional de Saúde, em articulação com os de redução dos AVC e EM.