Artigo de Medicina e Saúde®
Nº 119 / Setembro de 2007
24 Terapia da Fala
Gaguez: palavra puxa palavra
Entrevista com Dr.ª Cristina Villa Simões, terapeuta da fala do Hospital de Santa Maria, em Lisboa.
Quando a gaguez toma conta da sua vida e não sabe o que fazer para contrariar a disfunção da linguagem, o melhor é recorrer a um terapeuta da fala. E não falhar os exercícios.
Quem nunca se sentiu ansioso ao ponto de começar a gaguejar na hora de dizer um discurso importante, ou apresentar um qualquer trabalho, que atire a primeira pedra. Inesperadamente, afinal, todos temos uma «costela» de gago. A diferença é que uns perdem a disfunção tal como a ganharam: de um momento para outro. Outros há que, contudo, acabam por fixá-la.
«Existe uma tendência genética para se desenvolver a disfluência. Por isso, há pessoas que, após um momento de ansiedade, conseguem recuperar rapidamente a afluência do discurso e outras que não», explica a Dr.ª Cristina Villa Simões, terapeuta da fala do Hospital de Santa Maria, em Lisboa.
Até há pouco tempo, para Ricardo Almeida, era certo e sabido que, umas horas antes de entrar nas reuniões da empresa, o suor iria começar a manchar-lhe o rosto e que a voz iria fraquejar na hora H.
«Bem que tentava beber chá para me acalmar e até recorri a alguns calmantes naturais. Mas não valia de nada», relembra Ricardo.
A impossibilidade de dar a conhecer os seus pontos de vista de uma forma clara e esclarecedora acabou por lhe trazer alguns dissabores, a nível profissional:
«Assim que percebia que não me fazia entender, começava a ficar nervoso e era pior. Ficava irritado, o que deixava os outros mal-impressionados. Apesar do apoio dos colegas mais próximos, não me sentia à-vontade para lidar com os problemas.»
Angústia silenciosa
Não existe uma explicação científica para esta disfunção da fala. Apenas se conhecem algumas hipóteses que tentam decifrar o mistério.
Como esclarece a especialista do Hospital de Santa Maria, «há muito que se pensa que poderá estar associada a um problema neurológico, mais precisamente a uma assimetria cerebral, mas nada foi provado». E reforça: «A única certeza que existe é que não basta haver um choque emocional, ou uma situação de stress. Para que ela se mantenha de forma constante, é preciso haver uma predisposição genética.»
É impossível eliminar a gaguez de um dia para o outro. Contudo, é possível contrariar as manifestações mais comuns. E, neste campo, o primeiro passo a ser dado é procurar a ajuda de um profissional, o terapeuta da fala.
«A pessoa tem de estar consciente que pode levar semanas até sentir alguma diferença. A persistência está na base do sucesso da maioria dos casos», refere Cristina Villa Simões.
Dado o estado emocional da pessoa baixa auto-estima, estado de ansiedade constante , as sessões de terapia funcionam em paralelo com consultas com um psicólogo.
Desafiar as palavras
Bem mais complexa do que seria de supor, a gaguez, para além de uma disfunção do aparelho vocal, é também uma disfunção de comunicação e de comportamento. Os consecutivos abalos da auto-estima e da autoconfiança acabam por prejudicar todas as relações interpessoais, ao mesmo tempo que agudiza o problema.
«É muito comum os gagos não manifestarem as falhas de linguagem quando cantam ou quando estão a representar. E a explicação é simples: são ambas acções mecânicas, em que a pessoa não tem de pensar na forma como vai entoar a frase (uma vez que já existe uma entoação predefinida), ou como é feita a respiração mais correcta», menciona a especialista do hospital de Santa Maria.
A solução passa pelo recurso a secções de terapia da fala. Apesar de não haver uma cura para a gaguez, os exercícios permitem minorar, gradualmente, a disfluência.
Orientados directamente para os mecanismos da fala, a terapêutica passa por várias etapas. Por um lado, é essencial ensinar técnicas de relaxamento, já que os gagos tendem a colocar involuntariamente os músculos sob tensão. O trabalho implica, ainda, aprender a controlar a respiração de forma a facilitar um discurso fluente. Existem padrões irregulares de respiração, que é essencial controlar.
Aprender a respirar de forma relaxada permite sincronizar de forma correcta e perceptível a respiração e a fala.
Uma terapia implica muita conversa entre o especialista da fala e o gago. «A técnica tem efeitos a médio e longo prazo. É preciso muita persistência da parte do doente. Ao fim de algumas sessões começa a sentir as melhoras», afiança a especialista. O que significa que as secções no consultório não são suficientes, sendo também necessário fazer o «trabalho de casa». E, essencialmente, não desistir logo no início.
Texto: Cristina Cunha Pereira