Artigo de Medicina e Saúde®
Nº 119 / Setembro de 2007
58 Radiografia - CENTRO DE MEDICINA DE REABILITAÇÃO DE ALCOITÃO (CMRA)
Reabilitar a vida
Situado em Alcoitão, o Centro de Medicina de Reabilitação recebe há quatro décadas pessoas que carecem de minimizar as sequelas causadas por um acidente ou por uma doença. Oferece muito mais que fisioterapia e assume-se como uma instituição de referência e excelência na área.
Para uns é um mito, para outros, um local milagroso. Dito desta forma parece que de uma miragem se trata. Errado. Existe há 41 anos, numa localidade muito próxima de Cascais. Conhecido também simplesmente pela terra que o acolhe Alcoitão , o Centro de Medicina de Reabilitação de Alcoitão (CMRA) situa-se numa área repleta de vegetação.
Quanto à mítica envolvente, não é obra do acaso... Não raras vezes, em minutos ou segundos, algo acontece que muda radicalmente uma vida. De um acidente grave podem resultar mortes, mas também vidas desfeitas, sonhos acabados e esperanças perdidas.
Em Alcoitão, nem todas as esperanças estão perdidas, não existe lugar para sonhos derrubados e tão pouco para vidas estragadas. Há, sim, espaço para a mudança e para reaprender a viver.
Nem é necessário entrar nas instalações e nos enormes ginásios ou na piscina para perceber esta realidade. Na entrada principal é frequente ver chegar e partir utentes, cujas marcas de incapacidade temporária (ou não) são bem visíveis. A maioria encontra-se ali para reaprender a andar, a mexer-se, a viver... após um acidente ou uma doença congénita ou adquirida.
Líder e pioneiro
Pertence à Santa Casa da Misericórdia de Lisboa (SCML) e, actualmente, disponibiliza, por ano, cerca de 9000 consultas de ambulatório e mais de 500 admissões de doentes. O CMRA tem feito um percurso de se lhe tirar o chapéu, com sucesso predestinado antes do lançamento da primeira pedra.
«A instituição surge numa altura em que não havia nada idêntico no País, ao nível da especialização em reabilitação do grande incapacitado de predomínio motor. Foi construído à imagem dos melhores que existiam na Europa e após a fundação, em 1966, foi considerado o melhor do mundo», indica o Dr. Jorge Jacinto, adjunto da directora clínica do Centro de Medicina de Reabilitação de Alcoitão, Dr.ª Filipa Faria.
Iniciou-se, assim, uma nova etapa na reabilitação em Portugal, quando a especialidade era relativamente recente (a Medicina Física e de Reabilitação tem 52 anos no País).
«O conceito da simples Medicina Fisiátrica mudou, tornando-se mais holístico, de abordagem multidisciplinar para a reabilitação global do indivíduo, isto é, não só das suas capacidades funcionais, mas também da sua capacidade de participação e realização familiar, social e vocacional», sustenta Jorge Jacinto.
Serviços existentes
O CMRA está organizado em três serviços. O Serviço de Lesões Vertebromedulares, para adultos, com sequelas de lesões vertebromedulares de diversas etiologias. Grande parte das lesões vertebromedulares deve-se, sobretudo, aos acidentes de viação, pelo que não é de estranhar que os utentes paraplégicos e tetraplégicos sejam na sua maioria jovens. Os mais idosos, regra geral, estão a ser acompanhados neste serviço devido a lesões provocadas por tumores e mielites.
O Serviço de Reabilitação Pediátrica e Desenvolvimento destina-se a crianças e adolescentes dos 0 aos 18 anos, com sequelas das mais variadas doenças, sendo as mais comuns as patologias com afectação do sistema nervoso central, incluindo lesões congénitas (espinha bífida, paralisia cerebral, etc.), mas também casos de traumatismos originados por acidentes domésticos, atropelamento ou afogamento.
No Serviço de Reabilitação Geral de Adultos são tratados utentes com sequelas de qualquer etiologia, excepto as lesões vertebromedulares. A população predominante tem danos resultantes de acidentes vasculares cerebrais (AVC) e os restantes têm sequelas de patologia do sistema nervoso central, sofreram uma lesão encefálica por traumatismo ou sofrem de patologia reumatológica ou ortopédica grave, como a artrite reumatóide, a espondilite anquilosante, as polifracturas, etc. Existem, ainda, utentes amputados dos membros, com situações graves e complexas.
«Acompanhamos casos graves e muito graves, com necessidade de cuidados muito diferenciados. Actuamos em multivalências, abrangendo todos os profissionais das equipas envolvidas na reabilitação e contando com o apoio de médicos de diversas outras especialidades, como consultores na abordagem global dos doentes do internamento e do ambulatório», refere Jorge Jacinto, frisando:
«Grande parte dos nossos utentes tem sequelas permanentes que, de alguma forma, necessitam de apoio periódico ao nível da evolução, de eventuais intercorrências e/ou de novos episódios.»
Além da Medicina...
Os internamentos têm uma duração média/longa. Ora, no caso das crianças, isso implicaria a perda de matérias escolares. Algo que não acontece.
«Trabalha connosco uma professora destacada da Escola N.º 2 de Alcoitão, que dá aulas ao Primeiro Ciclo nas nossas instalações», informa o Dr. Pedro Reis, administrador do Centro de Medicina de Reabilitação de Alcoitão, que opina:
«Isto permite que as crianças mantenham a aprendizagem durante o tempo em que estão internadas, não ficando em desvantagem em relação aos seus colegas. É uma mais-valia que implica um enorme esforço por parte da professora, pois encontra alunos em várias fases de aprendizagem.»
«Contamos com apoios nas áreas do Ensino Especial e do Ensino Secundário (do 9.º ao 12.º ano), nomeadamente, por professores que se disponibilizam voluntariamente para vir ao Centro leccionar fora do horário laboral», salienta a Dr.ª Emília Farinha, fisioterapeuta directora, acrescentando que «também são realizadas regularmente videoconferências nas aulas, dando aos alunos a possibilidade de interagirem com outros que se encontram nas escolas da comunidade».
Porque a reabilitação também é emocional, o Núcleo de Animação Cultural e Recreativa é outra das valências que ultrapassam o âmbito da reabilitação física.
«Através deste Núcleo são desenvolvidas e implementadas acções, em colaboração com os diferentes profissionais da equipa de reabilitação. Promovemos actividades regulares com frequência ao longo do ano, para todos os nossos utentes, com o objectivo de proporcionar momentos de lazer, entretenimento, descoberta e, sobretudo, auxiliar na inclusão social», menciona Jorge Jacinto, sublinhando que «o intuito é mostrar, na prática, que as competências podem ser readquiridas, embora de outra forma».
A Enf.ª Ana Paula Fernandes é a enfermeira directora do Centro de Medicina de Reabilitação de Alcoitão e é na qualidade do mais recente elemento do Conselho Directivo que traça uma interessante análise. Nas suas palavras, «num hospital de agudos, a nossa missão é o tratamento intensivo de determinada patologia, de modo a permitir que o doente recupere do ponto de vista de saúde e volte ao seu quotidiano. Ou seja, a interacção com o utente é muito vocacionada para a área terapêutica, mas em Alcoitão encontrei uma realidade completamente diferente».
E especifica: «Não passa apenas por recuperar o doente na perspectiva de ser novamente reintegrado na sua vida social e profissional com as limitações que tem minimizadas, dentro do possível. Há uma interacção entre os grupos profissionais, sendo que a agenda não é feita apenas em função da nossa actividade profissional major, mas sim em função das actividades que é necessário desenvolver ao longo do dia, da semana ou do mês, nas diversas valências do programa de reabilitação intensivo e personalizado, sempre em interacção com os utentes e o seu entorno.»
Panóplia de recursos tecnológicos
São vários os recursos tecnológicos que distinguem o Centro de Medicina de Reabilitação de Alcoitão.
O CMRA é um dos poucos hospitais com oficinas próprias de ortoprotesia, com remodelação e modernização ao nível de tecnologias e infra-estruturas já agendadas.
«Os recursos na área do diagnóstico são aplicados fundamentalmente aos doentes que constituem a nossa população alvo. Temos conseguido implementar equipamentos de modo a que não sejamos obrigados a referenciá-los para outras instituições para realizar exames complementares de diagnóstico», diz Jorge Jacinto, frisando:
«Os investimentos são significativos e têm aplicação concreta no bem-estar do doente e no resultado optimizado do nosso trabalho de reabilitação.»
«No Laboratório onde se efectuam as provas de função respiratória dispomos de equipamento que comporta cadeiras de rodas, não tendo o paciente de sair do seu meio de locomoção, e por vezes suporte para fazer o exame», diz o administrador hospitalar.
Pedro Reis destaca também a utilidade do Laboratório de Avaliação da Posição de Sentado, que «permite seleccionar os materiais correctos, os ângulos certos, os dispositivos de suporte, contenção ou segurança e as dimensões mais adequadas do equipamento que cada indivíduo vai passar a utilizar».
O Laboratório da Marcha foi pioneiro em contexto clínico, sendo o mais experiente e melhor equipado do País. Recorrendo a tecnologias avançadas de análise tridimensional do movimento e à electromiografia dinâmica telemétrica, destina-se a registar e analisar a marcha dos indivíduos em estudo.
O Centro de Mobilidade é um laboratório que funciona desde 1999 no âmbito do Programa Europeu Autonomy. Foi implementado em parceria com a Fiat, é único em Portugal e, através de um simulador, avalia a aptidão para a condução de veículos automóveis, determinando as eventuais adaptações necessárias aos veículos.
O Lokomat constitui um recurso tecnológico na área da fisioterapia, através do qual é possível efectuar treino de marcha com carga parcial por suspensão, o que é muito benéfico para indivíduos com défices de força muscular de diversas etiologias.
A fisioterapeuta Emília Farinha explica: «Trata-se de um tapete rolante com um sistema electrónico acoplado, que permite que uma pessoa, mesmo sem capacidade de movimentos activos dos membros inferiores, possa exercitar a marcha. E mesmo que o doente não possa voltar a andar, pelo menos mantém a memória do movimento, o que em termos psicológicos é gratificante.»
«Temos feito um esforço no sentido de inovar os equipamentos, bem como as estruturas físicas, que são isentas de barreiras físicas ou arquitectónicas», afirma o administrador do CMRA.
Formação e investigação
Ao longo de 41 anos, a evolução não se verificou apenas ao nível tecnológico, mas também nos conhecimentos e conceitos. Têm, pois, sido essenciais os eventos de cariz científico, como o Curso de Desenvolvimento da Criança dos 0 aos 5 anos, com 25 anos de existência, e as Jornadas Internacionais de Medicina de Reabilitação, cuja 4.ª edição será em Janeiro de 2008.
«Assumimo-nos como uma instituição de referência e excelência e, como tal, temos tido a preocupação de partilhar, contactando de perto com os profissionais nossos pares para os ensinarmos e nos ensinarem», comenta Jorge Jacinto.
Aliás, conforme avança Pedro Reis, «a aposta na formação e investigação é um dos objectivos estratégicos para o próximo triénio. Vamos redinamizar o nosso Centro de Formação e pretendemos constituir um Núcleo de Investigação, de modo a desenvolver projectos inovadores e de qualidade elevada nestas vertentes».
E revela projectos futuros: «Queremos construir um Centro Desportivo-terapêutico, para as pessoas com deficiência em geral, os nossos utentes e colaboradores disporem de um local com todas as condições necessárias para a prática desportiva. Este será um equipamento aberto à comunidade em que nos inserimos e aos alunos e pessoal da Escola Superior de Saúde de Alcoitão, na perspectiva da promoção de estilos de vida saudáveis, da inclusão social e da responsabilidade social das organizações.»
«A criação do Centro de Alcoitão ao Serviço da Acessibilidade CASA (casa inteligente interactiva) é um objectivo que perseguimos há três anos, que já está em fase de elaboração do projecto arquitectónico», conclui Pedro Reis.
Protocolo com a Câmara Municipal de Cascais
O Centro de Medicina de Reabilitação de Alcoitão estabeleceu diversas parcerias e projectos inovadores com várias entidades, sendo a Câmara Municipal de Cascais um parceiro estratégico.
A título de exemplo, o CMRA, a Câmara Municipal de
Cascais e o Clube de Ténis do Estoril celebraram um protocolo, no início de 2007, com o intuito de proporcionar a prática de ténis adaptado a pessoas com deficiência predominantemente motora.
Praticar uma actividade desportiva contribui bastante para a integração social. O ténis em cadeiras de rodas possui efeitos positivos não somente a nível lúdico, mas também terapêutico.
Com este protocolo de colaboração estão criadas as condições para conferir igualdade de oportunidades aos portadores de deficiência do concelho de Cascais. A edilidade comparticipa financeiramente a prática da modalidade com um montante estabelecido, divulga a iniciativa e garante o transporte das pessoas.
Texto: Sofia Filipe
Fotos: José Madureira