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Artigo de Mundo Médico® Magazine

Nº 45 / Maio e Junho de 2006






10 Em Lisboa, o Dr. António Santinho Martins passa a infância no liceu Camões. Duas paixões começam a surgir – a medicina e o cinema – e vão acompanhá-lo até à idade adulta.
Definir de onde é António Santinho Martins é um desafio. Apesar de ter nascido em Setúbal, a infância levou-o a viajar pelo País. A profissão do pai, funcionário público, fez com que a família viajasse bastante, ao ponto de o próprio afirmar que é 1/3 sadino, fruto do nascimento, 1/3 lisboeta, pelo facto de ter fixado residência em Lisboa desde os 5 anos, e 1/3 algarvio, por sempre ter passado as férias na zona de Albufeira.

Em Lisboa, passa a infância no liceu Camões, até à entrada para a Faculdade. Duas paixões começam a surgir – a medicina e o cinema – e vão acompanhá-lo até à idade adulta.

O fascínio da séti­ma arte atribui-o aos pais e a um amigo de Setúbal, um pouco mais velho.
«Foi o filho de uns grandes amigos dos meus pais que me ensinou o veneno do cinema. Ele tinha mais uns seis anos do que eu. Era um indivíduo bastante engenhoso e ensinou--me a construir uma máquina de cinema. Era um caixote de madeira, uma lâmpada com água dentro e depois, com os raios solares e um espelho, conseguíamos uma ampliação, metia-se um fotograma e projectávamos na parede. Além desse meu amigo, o gosto pelo cinema vem também dos meus pais. Eles gostavam muito de cinema e, felizmente, apanhei aquela fase em que ainda não havia classificação de filmes, o que me permitiu ver muitos bons filmes», esclarece-nos Santinho Martins, presidente da Sociedade Portuguesa de Sexologia Clínica (SPSC).

Além destas paixões, a razoá­vel biblioteca de que o pai dispunha fomentou-lhe igualmente o gosto pela leitura, que serviu de porta de entrada ao gosto pela arte em geral.

Também importante, foi o contributo do Diário de Lisboa Juvenil, um suplemento do Diário de Lisboa.
«Quando andava no liceu, o Diário de Lisboa Juvenil trouxe-me uma influência bastante positiva. Para além de podermos escrever, organizavam-se encontros, aos sábados, com actores, escritores e outros artistas, permitindo entrar em contacto com eles e fazer-lhes perguntas.»

No entanto, os dois amores de Santinho Martins complicaram-lhe a vida no primeiro ano de Faculdade. Chegou a fazer crítica de cinema em rádios e mesmo a trabalhar profissionalmente em alguns filmes como, por exemplo, «Um Sorriso do Destino», de título original «Vacances Portugaises», de 1963, realizado por Pierre Kast e protagonizado por Daniel Gélin, Françoise Arnoul e Catherine Deneuve ou «Pão, Amor e Totobola», de 1964, realizado por Henrique Campos, com Perla Cristal, Florbela Queirós e Américo Coimbra.

«O meu primeiro ano da Faculdade foi complicado porque, com esta história do cinema, ainda perdi uns dois anos. Tive de decidir. Ou me tornava profissional da medicina ou do cinema. Ganhou a medicina, pois, era um apelo que vinha desde os 4 anos», revela Santinho Martins.

Quando chegou a altura do estágio profissional, decide-se pelos Hospitais Civis, que considerava terem uma vertente mais clínica. Nestes hospitais, «não havia tanto a vertente do estudo dos pacientes, mas sim mais a preocupação em tratá-los. Em Santa Maria os doentes eram, simultaneamente, um caso de estudo. Era como se fosse a diferença entre uma questão académica e uma questão clínica».

A marca do Ultramar

Como muitos da sua geração, a guerra colonial levou-o, após a conclusão dos tempos de Faculdade, a terras de África. Depois do adiamento pedido no primeiro ano para concluir os estudos, era chegada a hora de cumprir o serviço militar obrigatório.

Em Abril de 1972, depois de uma passagem pelo Exército, vai parar à Força Aérea, sendo colocado no regimento de pára-quedistas. Curiosamente, nunca fez um salto de pára-
-quedas. Enquanto aguardava a mobilização para as colónias, o tempo foi passado entre Tancos e os Hospitais de São José e de Curry Cabral.

«Deram-me alguma liberdade e passava parte do tempo em Tancos e outra parte em Lisboa, no Hospital de São José. Isto era uma grande preocupação para mim porque, como ia embarcar, queria ir o mais bem preparado possível. Também passei pela rea­nimação do Curry Cabral onde aprendi a fazer hemodiálise e a trabalhar com aparelhos de respiração assistida, isto tudo antes de embarcar».

Embarca para Angola, sendo colocado em Luanda. No Serviço de Saúde da base do Ngaje, os cirurgiões eram da Força Aérea e o anestesista pertencia ao Exército. No entanto, e como acontece em cenários de guerra, e não só, havia falta de anestesistas e aquele elemento do Exército foi retirado, ficando apenas os cirurgiões, mas sem anestesista.

«Sem anestesista não dava para fazer cirurgias. Os cérebros militares da Força Aérea lembraram-se, como eu tinha experiên­cia de reanimação, fizeram-me anestesista. Disseram-me: ”o nosso general resolveu que vá aprender Anestesia para o Ngaje”. Fui para o Hospital de Luanda e tive três meses para aprender Anestesia, algo que na altura demorava três anos. Fartei-me de estudar porque pôr alguém a dormir é tarefa fácil e o pior vem depois», lembra o médico.

Passa o 25 de Abril em Angola, e na altura nunca imaginou que tivesse as consequências que teve para os colonos.
Em Dezembro de 1974 regressa a Lisboa. Apesar da experiência, ainda lhe faltava entrar na especialidade. Ainda pensou em seguir Anestesia, uma prática na qual já estava rotinado, mas desistiu, não só pelas diferentes condições entre Angola e Portugal, melhores no Hospital Universitário de Luanda, como pela relação entre paciente e médico, a qual preza muito.

A outra opção era a Endo­cri­nologia, pois, «desde a Faculdade que sempre me interessou a interligação entre o corpo e a mente, bem como a relação que se constrói entre o médico e o paciente, talvez devido à minha formação humanista. Também fui bastante influenciado pelo Prof. Barahona Fernandes, que ti­nha uma noção muito lata da Psiquiatria e nas aulas falava sempre da concepção holística do Homem. Talvez daí o meu interesse pela psicossomática.
Comecei a ler algumas coisas e a perceber que muito do que se passava na mente tinha a ver com as hormonas. Isto levou-me à Endocrinologia. É fácil perceber o caminho».

Portugal vivia o auge do Processo Revolucionário Em Curso (PREC) e Santinho Martins, como tinha participado na guerra, sentiu-se, por vezes, olhado de lado, tal como muitos outros.

«O regresso a Portugal foi uma altura complicada. Era um período revolucionário e muitos dos que tinham feito a guerra eram estigmatizados. Depois de me ter licenciado, estive seis anos para entrar na especialidade, enquanto que colegas meus, que por um ou outro motivo não foram à guerra, já tinham a especialidade e eu andava a lutar por ela», recorda o especialista.

«O médico também pode funcionar, e muito, como medicamento»

Se há algo que Santinho Martins valoriza é o seu relacionamento, enquanto médico, com os seus pacientes.
«O médico também pode funcionar, e muito, como medicamento. Algumas pessoas criticam as relações médico-doente que antigamente seriam mais paternalistas. Quase que me apetece perguntar qual o mal disso. Nós somos reacções químicas, é verdade, mas também somos psicologia, emoções e afectos. Tem de haver especializações, mas isso não implica que não se tratem as pessoas como um ente por inteiro, que o é.
A sexologia, por exemplo, não é só genitais. É um todo. Depois, torna-se complicado porque o médico agarra-se à parte orgânica, enquanto o psicólogo se agarra à parte psíquica, só que nós somos parte dos dois», advoga o endocrinologista.

Acredita no conceito da multidisciplinaridade, mas não necessariamente em grandes equipas. A grande vantagem nesse conceito prende-se com o facto de que desse modo, já que falam a mesma língua, todos conhecem um pouco o trabalho do outro. Assim, «evitamos que o paciente ande a ser chutado de um lado para o outro em exames complementares e testes».

Em 1983, envereda por um novo desafio. Entra na Faculdade de Belas Artes onde, durante quase 10 anos, foi o regente da cadeira de Ergonomia, até 1992, altura em que entra no Hospital de Júlio de Matos.

«Foi uma experiência muito boa. Permitiu-me contactar com a arte e com os meus alunos, apesar de eles não gostarem muito da cadeira. Mas em termos pessoais, como gosto do contacto com as pessoas, foi muito enriquecedor», confessa o professor universitário.

De volta à medicina, a área da especialidade leva-o a enfrentar alguns casos complexos, maioritariamente por ideias preconcebidas.

De acordo com Santinho Martins, «no caso da obesidade, por exemplo, acontece muito as pessoas pensarem que vão tomar uma pílula milagrosa e que podem continuar com o mesmo estilo de vida. Só que não há resultados imediatos. Há questões metabólicas muito complicadas, em que a alimentação que as pessoas têm não justifica os problemas de peso que enfrentam. No caso da sexualidade, ainda há uma certa incompreensão em relação aos comportamentos se­xuais. As pessoas não percebem que a sexualidade é uma coisa perfeitamente normal, que faz parte, inclusive, dos direitos do homem. É um campo em que somos muito iguais. O comportamento sexual dos portugueses é igual ao dos franceses ou dos americanos. Pode haver algumas pequenas diferenças de índole cultural, mas, no geral, somos iguais».

Após anos de vida activa, foi chegada a hora da aposentação. A situação era de tal forma intensa que «chegou uma altura em que pensei que ou matava o Hospital, ou o Hospital me matava a mim. Foi a altura de reformar».

Actualmente, vai dedicando o seu tempo à Sociedade Portuguesa de Sexologia Clínica, à participação em alguns eventos e à sua outra paixão, a arte erótica.
«A minha colecção de arte começou como uma questão quase profissional. Sempre gostei de arte. Era difícil, em conferências e simpósios, ter forma de exemplificar do que estava a falar. Comecei por comprar uns livros para fazer slides para ilustrar as conferências. Depois comecei a comprar arte erótica, esculturas, pinturas, etc. e nunca mais parei. No campo da literatura erótica, o que mais gosto é da poesia. Nos filmes, o erotismo tem de ser bem contextualizado e com sentido estético, senão pode considerar-se pornografia. O erotismo suave é o mais interessante. Há cenas eróticas, provavelmente escusadas no contexto do filme e, também, por vezes, uma grande ausência de afectos», conclui António Santinho Martins, médico endocrinologista, professor universitário, pai do Pedro e da Rita, com 35 e 29 anos, respectivamente, ambos advogados, e actual presidente da Sociedade Portuguesa de Sexologia Clínica.
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